Gestão de crise e resiliência: porque são determinantes no imobiliário?

No 23.º episódio do podcast Let’s Get Real Estate powered by iad, o tema escolhido foi tão transversal quanto inevitável: a gestão de crise e a resiliência do consultor imobiliário.

Num contexto marcado pela incerteza — económica, política, social e até emocional — a forma como os profissionais do setor reagem à adversidade tornou‑se um verdadeiro fator diferenciador. Mais do que nunca, não basta dominar processos, ferramentas ou conhecimento técnico. É preciso saber lidar com a pressão, com o “não”, com a mudança constante e com as próprias emoções.

À conversa estiveram Alfredo Valente, CEO da iad Portugal, Pedro Silva, especialista em desenvolvimento pessoal e autor do livro “Soft Skills para Todos”, e Sónia Fernandes, consultora imobiliária iad e formadora habilitada, trazendo para o debate tanto a perspetiva estratégica como a realidade crua do terreno.

A crise deixou de ser exceção: tornou‑se contexto

Logo no início do episódio é feita uma distinção importante: não vivemos apenas crises pontuais de mercado, vivemos num estado contínuo de mudança e instabilidade. Tudo pode alterar-se rapidamente — regras, comportamentos, expectativas dos clientes, contexto económico ou tecnológico.

Neste cenário, o consultor imobiliário é constantemente chamado a adaptar‑se, muitas vezes com pouco tempo para integrar aprendizagens ou recuperar emocionalmente entre desafios. Como refere Pedro Silva, os ciclos tornaram‑se mais curtos, mais intensos e mais exigentes, o que coloca a resiliência no centro da atuação profissional.

Resiliência não é ignorar o problema, é saber enfrentá‑lo

Ao longo da conversa, um ponto é repetido de forma clara: resiliência não é fingir que está tudo bem.

Pedro Silva explica que uma atitude positiva não significa desvalorizar dificuldades, mas sim encará‑las como oportunidades de crescimento. É nos momentos mais desafiantes que muitas pessoas descobrem competências, força e capacidade de decisão que nem sabiam ter.

Neste contexto, duas competências surgem como estruturais: atitude positiva e confiança. A primeira permite olhar para a adversidade com realismo e ação; a segunda impede que a crise abale a perceção de valor pessoal e profissional — algo particularmente sensível numa atividade onde a rejeição faz parte do quotidiano.

O ‘não’ faz parte da profissão: o problema é levá‑lo para o lado pessoal


Um dos momentos mais relevantes do episódio prende‑se com a normalização da contrariedade no imobiliário. O “não” do cliente, o negócio que cai, a oportunidade que não se concretiza são microcrises constantes na vida do consultor.

Pedro Silva resume este ponto de forma incisiva:

Sónia Fernandes reforça esta ideia com a experiência prática, partilhando como, no início da carreira, cada recusa era vivida com ansiedade e insegurança — algo comum a muitos profissionais. Com o tempo, percebeu que o “não” raramente é pessoal: é uma rejeição ao negócio, ao momento ou à proposta, não à pessoa.

Este distanciamento emocional é um dos pilares da resiliência. Quando o consultor deixa de interpretar cada recusa como uma ameaça à sua competência, ganha espaço mental para aprender, ajustar e evoluir.

Gestão emocional: uma competência invisível, mas decisiva

Grande parte do episódio cruza o tema da resiliência com a inteligência emocional. Antes de gerir clientes, processos ou negociações, o consultor precisa de saber gerir a si próprio.

Pedro Silva distingue dois níveis fundamentais:

Num setor onde medo, ansiedade e incerteza estão frequentemente presentes — tanto do lado do consultor como do cliente — esta capacidade torna‑se crítica. Como refere Pedro, o cliente pode não ter sempre razão, mas tem sempre emoção. Saber ler, compreender e regular essas emoções é parte essencial da relação de confiança.

Motivação: quando os resultados não chegam, de onde vem a energia?

Um dos pontos mais profundos do episódio surge quando se questiona o que sustenta o consultor em fases mais difíceis — quando os resultados falham, a confiança vacila e o contexto é desfavorável.

Pedro Silva identifica duas fontes de motivação particularmente sólidas:

A analogia com o atleta olímpico é clara: ninguém treina quatro anos apenas para celebrar uma medalha durante alguns segundos. A motivação verdadeira está no treino diário, no aperfeiçoamento contínuo e no compromisso com o processo.

No imobiliário acontece o mesmo. Quando a motivação depende apenas do fecho do negócio, qualquer quebra de resultados pode ser devastadora. Quando está ancorada no prazer de fazer bem, aprender e evoluir, torna‑se mais resistente à crise.

O papel do ambiente e do apoio: ninguém cresce sozinho

Outro aspeto fortemente sublinhado por Sónia Fernandes é a importância da partilha e do apoio entre pares. Num modelo como o da iad, onde existe acompanhamento, coaching e proximidade entre profissionais, a resiliência constrói‑se também em comunidade.

Pedir ajuda, partilhar dificuldades e assumir vulnerabilidade deixaram de ser sinais de fraqueza — são hoje comportamentos de maturidade profissional. O isolamento, pelo contrário, é apontado como um dos maiores riscos numa atividade já exigente por natureza.

Autocuidado e disciplina pessoal: resiliência também se treina fora do trabalho

Antes de encerrar, o episódio aborda um tema muitas vezes negligenciado: o autocuidado.

Tal como um atleta de alta competição não vive apenas do treino, também o consultor imobiliário precisa de descanso, recuperação, sono, exercício e gestão consciente do tempo. Pedro Silva chama a este perfil o “atleta de alto rendimento corporativo”, lembrando que não é possível manter performance elevada sem regeneração.

Sónia Fernandes reforça esta ideia com a sua experiência pessoal, sublinhando a importância de criar blocos de tempo, estabelecer limites e reconhecer que estar bem consigo própria é condição essencial para estar bem profissionalmente.

Resiliência não é desistir — é continuar de forma diferente

O episódio termina com uma mensagem clara para todos os profissionais do setor: desistir não é opção. As dificuldades fazem parte do caminho, mas é a capacidade de adaptação, diferenciação e aprendizagem que determina quem permanece e cresce.

Num mercado cada vez mais desafiante, a resiliência afirma‑se como uma competência estratégica — não apenas para lidar com crises, mas para construir carreiras mais sólidas, humanas e sustentáveis.

Ouça o episódio completo: